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sábado, 6 de setembro de 2014

Um defunto chamado Bob

Já fazia algum tempo que Pedro não visitava o seu amigo Mateus, e aquela monótona tarde de segunda feira, parecia bem oportuna para um encontro casual, em nome dos velhos tempos.

Ainda sem desgarrar de seu inseparável telefone celular, Pedro se despedia de mais um corriqueiro problema profissional. Diga-se de passagem, o homem é de um equilíbrio espantoso. Ele poderia perder todo o dinheiro e ainda assim se manter calmo o suficiente para elaborar uma estratégia de saída. Os amigos dizem que ele seria capaz de permanecer imóvel, no centro de um incêndio, e ainda tirar proveito disso.

Seu temperamento equilibrado, lhe rendeu algum sucesso no mundo do forex, o que torna essa história ainda mais sinistra. Já que é conhecido por todos, o impecável raciocino e a clareza, que estes senhores do mercado de cambio gostam de ostentar.

—  …se desfaça do petróleo e segure o ouro – concluía, preso ao telefone, o seu plano estratégico do dia. – O dólar não está confiável, vamos aguardar para ver como vai fechar. Isso… Boa garoto… Isso mesmo … - ao se dar conta que já se aproximara da porta da residência do amigo, Pedro viu que era hora de encerrar a ligação. – Amanhã a gente resolve o resto. Tenho que desligar, estou fazendo uma social na casa de um amigo. Ok. Adeus.

Com uma leve ajeitada na camisa e um sorriso rapidamente ensaiado, Pedro deu dois toques na velha porta de madeira e se preparou para ser recebido por Mateus. Apesar de serem amigos de longa data, Pedro e Mateus são extremos opostos. Enquanto Pedro faz o tipo homem de negócios arrojado, Mateus se comporta como um homem simples, porém de gostos exóticos.

Desprovido de qualquer preconceito, Mateus conversa com todos e se prende a detalhes que a maioria não se importaria. Ele é aquele cara que gastaria boa parte de seu tempo livre no mês, apenas para contemplar o casulo de uma lagarta qualquer, pela esperança de ver uma borboleta sair dali. Mas esta característica o Pedro tolerava, o que ele odiava de verdade, era a mania estranha que o amigo tinha de dar atenção a absolutamente qualquer pessoa.

Houve uma situação inusitada em que Pedro precisou intervir, em um caloroso debate filosófico entre Mateus e um louco que gritava em um cruzamento no centro da cidade. O irritante, para Pedro, foi ver o empenho e a seriedade que o mesmo aplicava, em uma discussão sem sentido com um indivíduo claramente perturbado.

Mas isto não perturbava a amizade dos dois. Tanto não perturbou, que o reencontro não tardaria a ocorrer novamente.

A porta se abriu.

— Boa… - Pedro esperava ser recebido por seu amigo, mas uma figura incomum, surgiu pela porta entreaberta. – …tarde? – completou inseguro diante do que estava vendo.

Serei direto para não gerar confusões. Pedro foi atendido por um defunto, cadáver, morto vivo ou como você queira chamar. Isso mesmo! Era um defunto, com a pele podre e cheia de buracos. Sem falar nos olhos completamente brancos e sem vida.

— Eu… Ham… - Uma pessoa sensata sairia dali imediatamente, mas em alguns momentos, Pedro era equilibrado demais para tomar uma atitude inteligente, diante de uma situação inusitada.

Diante da língua travada do homem, o defunto falou algo. Ou tentou falar. Quer saber? Estava mais para um grunhido sem sentido. Provavelmente na cabeça da coisa, ele deveria estar dizendo algo, mas tudo que consegui soltar, foi um hálito fétido. Como de um defunto.

— Pedro? – Um homem familiar surgiu logo atrás do defunto, se apoiando na ponta dos pés, com um sorriso bobo no rosto. – Puxa vida cara, se eu soubesse que viria, teria preparado um lanche – Completou de forma entusiasmada, enquanto atropelava o cadáver, para poder apertar a mão do Pedro.

Mateus precisou pegar a mão do homem, para poder cumprimenta-lo, pois Pedro ainda estava um tanto perplexo, com o olhar fixo na coisa.

— Vamos, entre – convidou o amigo.

— Aquilo… - apontou para o defunto, sem conseguir se expressar.

— Há! Ele? É o Bob. Vamos, entre. Tem um cafezinho quentinho lá dentro. Lamento não ter nada para comer.

Pedro entrou mudo, diferente de Mateus que não parava de tagarelar. Apesar de ainda abalado, ele não disse uma palavra. Para Pedro, o Mateus havia se superado. Será que ele não havia percebido? Quer dizer, quem não notaria um defunto vagando pela casa? Ou pior. Recebendo as visitas na porta.

— Não seja indelicado Bob, vá lá na cozinha e traga um café para o Pedro.

Quando a coisa desapareceu em direção a cozinha, com passadas arrastadas e desengonçadas, Pedro viu o momento perfeito para colocar um pouco de juízo na cabeça de Mateus.

— Mateus… - respirou um pouco, e tentou continuar de forma delicada. – Você notou que ele é… Bem, você sabe… Com os grunhidos e tal…

— Por favor, homem! Como não poderia deixar de notar – Pedro respirou aliviado neste momento. – Bob é afásico.

— Oque!? – Pedro engasgou com a própria saliva.

— Eu sei. Coitado, ele se esforça, mas acho que vamos ter que procurar um especialista. Você não tem problemas em lidar com afásicos, certo?

— Pelo amor de Deus, não – Pedro sentiu que teria que ter mais paciência com o Mateus. Era evidente que o amigo não possuía uma boa percepção. – Me responda uma coisa, aonde foi que você encontrou o Bob?

— Na rua.

— E você o trouxe para casa?

— Estava chovendo.

— Não é possível, Mateus – Pedro estava no limite da paciência. Ele não sabia se estava vendo demais, ou o Mateus que enxergava de menos. – Porque você o mantém por aqui?

— Ele me ajuda bastante, principalmente no sitio. Ele não reclama de nada, até me ajudou a abater os animais, no almoço de domingo.

— Disso eu não duvido.

— Não sei o porquê da preocupação. O bob me ajuda no dia a dia e pode-se dizer que eu devo minha vida a ele.

Foi então que Mateus contou as proezas de Bob. Contou como o mesmo cuida das tarefas mais chatas, como lidar com vendedores e testemunhas de Jeová. Verdade seja dita, nenhum deles voltou a incomodar, de fato até evitam aquela rua. Além disso, bob ajuda com o supermercado. Segundo Mateus, seu carisma rendeu os melhores lugares no supermercado, todos pareciam querer dar preferência ao Bob no caixa. Teve até um gerente que insistiu “pelo amor de Deus” que levasse as compras sem pagar.

Quanto a vida, Mateus realmente devia ao Bob. Um fim de tarde, enquanto passeava por uma rua deserta com o Bob (as ruas estranhamente ficam desertas quando o Bob sai de casa), um meliante, armado com uma faca, tentou assaltar o Mateus. Bob corajosamente se colocou na frente da lamina e defendeu o amigo na base das dentadas. Literalmente. Foi difícil tirar Bob de cima do assaltante.

— Ele é muito forte. Acredita que ele tomou dezesseis facadas e resistiu a todas, como se não fosse nada?

Pedro respirou fundo. Contou até dez em sua mente, ponderou por algum momento e decidiu que não ia mais aguentar isto. Dizem que a melhor forma de retirar um curativo, e puxando de uma vez. No exato momento em que Bob voltava com a bandeja do café, ele resolveu desabafar.

— Por Deus homem. O Bob é a droga de um Zumbi!

Um constrangedor silencio tomou conta do lugar. Mateus, ficou até assustado com o comentário, mas uma semente de dúvida foi plantada em sua mente.

— Não!? – disse voltando o olhar em direção ao Bob. – Não… - sem convicção, enquanto fitava os olhos sem vida do amigo. – Quer dizer… Não… Sério? Não.

Mateus pareceu ponderar um pouco, alternando seu olhar entre o olhar revelador de Pedro e a face inexpressiva do zumbi.

— Mas ele é tão bonzinho – com um tapa em sua própria perna, e de energia renovada, ele continuou. – Quer saber de uma coisa? Está tudo bem, eu não ligo para religião.

E ele continuou a conversa, ignorando um Pedro atônito. Definitivamente, Mateus é um homem sem preconceitos.

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