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domingo, 30 de novembro de 2014

Cordão negro

[*]Texto originalmente escrito como roteiro para um curta, que nunca cheguei a gravar. Adaptado como crônica, baseado nas manifestações que antecederam a copa no Brasil.


Em meio a uma espessa fumaça e sons de explosões, uma figura vestindo uma máscara de gás corria desesperada em busca de abrigo. Sem conseguir enxergar direito o que tinha pela frente, o sujeito entrou de forma abrupta na primeira porta que encontrou aberta. A porta principal de um pequeno edifício comercial.

Apesar de parecer uma causalidade, o indivíduo não estava em um lugar estranho a si. Na verdade era muito familiar, ele já esteve ali antes. Se sentia seguro, longe das bombas, de todo aquele gás e da confusão que estava fora do controle.

Ele encostou na parede, e se deu ao luxo de respirar fundo por alguns segundos. Em paz, como se não houvesse o caos que há lá fora, sozinho…

Não tão sozinho…

De súbito o sujeito percebeu que não está exatamente só. Ali também, protegido da fumaça, um PM do batalhão especial estava perdido em seus próprios pensamentos, longe da mesma confusão da qual ele estava tentando escapar. A visita do sujeito foi inesperada o suficiente para ele ficar fora de si por alguns segundos e esquecer diante de quem ele estava.

Era um policial, diante de um Black Bloc.

- Mas que droga… - o despreparado e assustado policial tentou sacar a sua arma.

Apesar de surpreender o Black Bloc, que não tinha como reagir naquele instante, a imperícia do policial foi patética, ao ponto dele acidentalmente liberar o pente de balas de sua pistola.

Vendo que o policial estava despreparado e desarmado, o manifestante se agarrou a mão do policial, tentando lhe tirar a arma a qualquer. Se aproveitando do fator surpresa, e acrescentando um golpe com seu próprio ombro. O policial foi ao chão, desarmado.

- Que ótimo – lamentou o policial, com desprezo a si mesmo a situação em que se colocou. 

Rapidamente o “Black Bloc” repôs o pente de balas na sua “nova” arma.

O policial ainda teve que aguentar uma abafada risada do sujeito, que não acreditava no “presente” que tinha acabado de ganhar. Este sujeito estava tão seguro de si, que já não achava mais necessário ocultar sua identidade. Ele queria provar para o seu opressor legitimado que não o temia mais.

Sem perder o policial da mira da arma, o sujeito retirou sua máscara, mantendo uma distância segura para evitar qualquer reação do alegado defensor da lei. Em alguns instantes, a máscara foi ao chão revelando um belo rosto feminino, com um olhar profundo e um sorriso cativante.

Era uma garota. Daquelas que derretem corações, que saem de um filme romântico bobo e meloso.

- Se você atirar em um policial, nunca mais terá liberdade em sua vida – rosnou o tira para ela.
- Você fala como se fosse mudar alguma coisa – debochou a garota.

Com um gesto ela apontou a escadaria e obrigou o policial a subir, em alguns momentos com certa truculência.

O policial caminhou pelo corredor, guiado a base de empurrões. Quando chegou a uma determinada porta, a garota passou uma chave ao policial. Ele entendeu o que era para fazer, mas abriu a porta com grande desconfiança.

Atrás da porta, foi revelado uma sala simples, bagunçada com algumas cadeiras e bancos. O lugar provavelmente era abandonado e fora usado para algum tipo de reunião ou encontro de jovens.

- Porque você não se senta – disse a garota em tom sarcástico.
- Tenho escolha?
- Tem, mas não vai gostar da outra opção – ela exibiu um sorriso, de canto de lábio.

Sem opção, o tira se sentou em uma cadeira que estava abandonada quase no centro da sala.

- Então… Você vai me matar agora ou vai esperar seus amigos vândalos virem para assistir?

A garota deixou escapar um pequeno riso.

- Você está muito tenso senhor… policial – esta última palavra ela pronunciou de forma sarcástica. – Não somo vândalos.
- Me desculpe – neste momento, foi ele o sarcástico. – Você é uma Black Bloc, certo? Neste caso vocês estão com todo o direito de quebrar tudo.
- Não somos vândalos. Roubar dinheiro público para colocar na copa, isso sim é vandalismo. Bater em professor que tá lutando por um salário melhor, também é vandalismo. Vandalismo é colocar um senador corrupto e condenado como presidente do senado. Vandalismo é obrigar o brasileiro acordar de madrugada, pegar três ônibus lotados, para chegar no trabalho atrasado e ainda ter o atraso descontado do salário, que já é uma porcaria. Isso é vandalismo!
- Me poupe, eu já conheço esse discurso.

O policial olhou ao seu redor, analisando rapidamente o local.

- Diga-me, isso aqui é o buraco aonde vocês se encontram?
- Esse buraco era um escritório de pesquisa de uma importante faculdade publica daqui, mas não se preocupe, foi fechado porque o governo fez cortes no orçamento – ela parou e refletiu um pouco. – Ou o antigo reitor roubou tanto que não conseguiu manter nada de pé. Vai saber, é tanto corrupto que é até difícil saber.
- Sabe de uma coisa. Porque a gente não desce e queima uma banca de jornal. Isso deve resolver um problema.
- Está vendo? Esse é um tipo de visão distorcida que a mídia tem da gente. Os black bloc jamais fariam isto, não aprovamos quando acontece. Não fazemos esse tipo de coisa sem um proposito. O que um pobre jornaleiro tem a ver com a história? Mas este é um ponto de vista distorcido, e você deveria saber disso. Ou a polícia não sofre do mesmo mal? – ela sorriu de uma forma “sagaz”.
- Vem cá, porque eu estou aqui afinal? Você me fez de refém para bater papo?
- Falando em visões distorcidas, eu te achei interessante. Nunca tive a oportunidade de conversar com um policial. Na maioria das vezes vocês estão jogando suas bombas ou disparando seus srays de pimenta na minha cara.
- Se queria tanto conversar comigo, porque não me chamou para sair? Eu costumo ser mais interessante quando não estou sob a mira de uma arma.
- É ruim quando se está deste lado da mira, né? – ironizou a garota.
- Você fala como se soubesse das coisas – o policial endureceu o seu tom. - Você sabe o quanto eu ganho para ter que fazer plantão de 24 horas, sem poder ver minha família nos feriados, entrando em favela no meio da noite? Você sabe o quanto eu ganho para encarar bandido armado de fuzil, enquanto eu uso uma arma que pode ser comparada mais a um estilingue? Não me fale sobre opressão. Eu ganho um salário de miséria, para dormir toda a noite com uma arma debaixo do meu travesseiro, lamentando os amigos que eu perdi por causa desta maldita farda. 
- Isso parece triste.
- Não zombe de mim – berrou. – Vocês foram criados a base de todinho e Playstation, mas o mundo aqui fora é difícil. Muito difícil – ele inclinou a cabeça, como se lamentasse uma lembrança recente. - Na maioria das vezes temos apenas uma fração de segundo para tomar uma decisão difícil. Essa decisão é o que separa um herói de um “bandido de farda”, como vocês chamam.

Fez-se um pequeno silencio.

- Neste ponto somos parecidos.
- Não vejo como. Meu trabalho é proteger a sociedade – rebateu o PM.
- O meu também.
 - Vocês quebram e queimam coisas.
- Vocês matam pessoas.
- Nem todo policial é assassino.
- Nem todo manifestante é vândalo.

De alguma forma eles estavam se divertindo com isso, mas ainda não admitiam isto. Uma estranha aura de paz e tranquilidade pairou pelo local em forma de silencio. Em algum momento eles se olharam e começaram a rir um do outro.

Eles gargalharam muito, e muito alto.

- Você não é como os outros policiais.
- Não vou amaciar, você ainda tem uma arma apontada para mim – disse o policial em tom de brincadeira.

O semblante da garota ficou sério. Ela respirou fundo e continuou.

- No começo fiquei curiosa para saber porque um homem de preto estava escondido da confusão, longe de seus companheiros. Acho que sei o que você ia fazer, mas não sei porque – ela olhou para a arma de forma triste, o policial nada disse. – Vou te devolver a arma, mas não faça o que você ia fazer… Não vale a pena.

O policial não sabia ao certo se ela realmente tinha conhecimento do que ele estava prestes a fazer com a arma naquele corredor escuro, longe de tudo, mas de alguma forma ele sentiu alguma simpatia por sua captora.

- Em outra circunstância talvez eu tivesse gostado de lhe conhecer.
- Você deveria ser anarquista.
- Porque?
- Porque ai você não ligaria de fazer isto – de surpresa, ela levou seus lábios de encontro aos lábios do policial, em um rápido selinho.

Perplexo, o policial não reagiu e acabou demorando para perceber que sua captora havia lhe devolvido a arma. Ele poderia ter sacado e prendido ela ali mesmo, como o seu dever o obrigaria fazer, mas desta vez era diferente.

Ela se virou e começou a sair calmamente da sala.

- Não faça a besteira que você ia fazer – disse antes de desaparecer pela porta da sala, com um sorriso no rosto.
- Não, não vou mais… - respondeu o policial ainda atônito.

Aquele encontro, havia mudado duas vidas, antes tão diferentes.

[**] Imagem da galeria de "OriginalBoss", retirada de: http://originalboss.deviantart.com/art/Gas-mask-render-340850898

2 comentários:

  1. Olá ADM!
    Fiz uma versão em forma de livro desta história lá no wattpad: https://www.wattpad.com/story/30430877-cord%C3%A3o-negro-completo

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